SOBRE UM SONETO DE GREGÓRIO DE MATOS

 

César Giusti

 

 

É no poema que se encontra grande parte das realizações lúdicas da palavra como fator expressivo da arte. Até hoje, a utilização de tal meio tem sido a arma fundamental na defesa da arte poética verbal. Recorrendo aos aspectos plástico, visual, sonoro e iconográfico da palavra, o poeta busca recriar suas emoções, transformando meros recursos gráficos em materiais artísticos.

Interessante notar que certos poemas giram em torno de efeitos aparentemente graciosos e que, não raro, condensam sua poeticidade nesse malabarismo que é garimpar significados da palavra. Na verdade, o garimpo é essencialmente uma habilidade que, entre outras, justificam a razão poética de certos artistas que se comunicam por poesia. Entretanto, já que o leitor de poesia é um tanto poeta, a comunicação e a recepção dessa arte terão mais efeito no seu consumo e interpretação quando, na análise textual, for operada uma ação semelhante ao garimpo, às avessas.

Assim temos, de Gregório de Matos:

 

01  Anjo no nome, Angélica na cara!

      Isso é ser flor, e Anjo juntamente:

03  Ser angélica flor, e Anjo florente,

      Em quem, senão em vós, se uniformara?

 

05  Quem vira uma tal flor, que não a cortara,

      De verde pé, da rama florescente:

07  E quem um Anjo vira tão luzente,

      Que por seu Deus o não idolatrara?

 

09  Se pois como Anjo sois dos meus altares,

      Foreis o meu Custódio, e a minha guarda,

11  Livrara eu de diabólicos azares.

 

      Mas vejo, que por bela, e por galharda,

13  Posto que os Anjos nunca dão pesares,

      Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

 

Capta-se a idéia do poema pelo que dizem as palavras: O poeta, (eu lírico) dirigindo-se a alguém (Angélica), expressa-lhe a ambigüidade do que ela significa para ele: mulher = anjo; mulher = flor; mulher = mulher. Depois de ponderar as três dimensões, declara o sentimento mais forte (tentação) que Angélica lhe transmite.

Decodificando o onomástico Angélica, o poeta chega a metaforizar: 1) a mulher Angélica é anjo porque seu nome lembra a raiz da palavra anjo (angelu), em Latim; 2) a mulher, Angélica é angelical, adjetivo de anjo, porque associa seus traços fisionômicos àqueles presumíveis dos anjos, segundo os padrões culturais de uma tradição; 3) a mulher Angélica é flor porque além de ser angelical (bela ao extremo, perfeitíssima), associa-se à própria flor angélica.

É, basicamente, o entrelaçamento desse jogo de conceitos e de palavras que faz com que o poeta, ludicamente, desenvolva a expressão do conteúdo ideológico do poema.

Poderíamos sintetizar o pensamento do poeta em segmentos correspondentes a cada estrofe, assim:

1º quarteto: Angélica, és Anjo e flor!

                   Angélica = ente semelhante à flor

                                      ente-flor = florente

2º quarteto: Angélica = jovem flor; florescente da verde rama

                   Angélica = anjo luzente; ente de luz = luzente

                   Angélica leva à admiração...

                                          ao corte

                                          ou à corte!?

Angélica leva à adoração... à idolatria, tal qual Deus.

1º terceto: Se és anjo... (deves) livrar dos azares (tentação)

                 pois que és Custódia (guarda)... anjo da guarda

2º terceto: Mas, és um anjo diferente do anjo da guarda

                 pois és bela e galharda; não me guardas e sim tentas

 

Conclusão: apesar de Angélica ser anjo e flor, juntamente, é, na verdade mais mulher; como Eva, tentando mais que protegendo.

Podemos deduzir que todo o desenvolvimento da idéia do poema se concentra no jogo onomástico que lhe serve de estrutura básica, no plano da expressão. Paralelamente a este jogo, detecta-se ,um intuito em estabelecer uma oposição de valores entre os três elementos que servem para determinar as dimensões da pessoa a quem o poeta se dirige: mulher / anjo / flor. A apresentação desses valores parece querer dignificar a visão que o poeta tem das coisas, ou mais especificamente, da mulher: uma visão do uno que é múltiplo, ou, em outro ângulo, do múltiplo que pode ser unificado. Isso seria uma modalidade do lirismo metafísico, em Gregório de Matos, dentro de um poema objetivamente amoroso. Seria uma forma de encarar a complexidade das coisas, de modo já comum no autor dos seguintes versos:

 

“O todo sem a parte não é todo;

A parte sem o todo não é parte;”

 

Quanto ao mais da estrutura expressiva do poema, podemos verificar algumas constantes como:

a) metrificação e rima coerentes ao soneto decassilábico de padrão clássico (camoniano e petrarquiano): abba / abba / cdc / dcd. Aliás, foi este o padrão dos versos em soneto de Gregório.

b) não há licenças poéticas; chamamos a atenção do leitor para os versos 10 e11, onde poderá haver o equívoco de se pensar em verso de pé quebrado. Leia-se:

fo / rei / so / meu / Cus / tó / dio e a / mi / nha / guar / da

li / vra / ra eu / de / dia / bó / li / co / as / za / res

c) a opção de rimas mantém o critério homofônico, acentuado pela constância de rimas consoantes (i. é, a vogal tônica é auxiliada pela consoante)

d) ainda são mantidas certas maiúsculas iniciais como em Anjo/s e Custódio, índices de um abstracionismo ou idealização de ranço clássico. Isto seria mantido até o período ocupado pelo Arcadismo.

e) o cultismo exemplificado no verso 03: ser Angélica flor, e Anjo florente... estende para o resto do poema a base para o desenvolvimento ideológico. Isso confirma que cultismo e conceptismo são indissociáveis.

f) “sois Anjo, que me tenta, e tão me guarda.” (verso 14) ressalta o caráter antitético, contido na significação opositiva de tentar e guardar.

 

Concluindo: todas as relações estruturais do poema estão presas à matéria que as corporifica. Assim, a natureza fônica, a lexical, a sintática e a semântica das palavras utilizadas nos poemas passam a ter uma relevante importância para a análise textual.

O que se deve procurar nesses elementos é a adequação do uso à significação do poema. Essa conformação a ser buscada não quer determinar a exaustão de sentido que a forma artística possui; ao contrário, o objetivo é procurar intensificar o valor dos materiais expressivos na elaboração poemática.

Os recursos encontrados no poema e explicados, retoricamente, servem para mostrar o valor da linguagem literária, como fator simbólico de grande carga conotativa.

Se na poesia a predominância é de um mínimo de significantes para um máximo de significados, está claro que toda análise textual deverá partir desse mínimo, buscando explorar a riqueza que aí subjaz, às vezes até de modo sub-reptício.

 

(Praia do Janga, maio de 1983)