DESFAZENDO OS MITOS DO AMOR: LOUISE LABÉ

Luzilá Gonçalves Ferreira

 

O amor é o único afazer das mulheres.

Não há amor feliz.

Mais de um século separa essas duas afirmações, a primeira, da autoria de alguém que se gabava de conhecer as mulheres, o romancista Honoré de Balzac, a segunda de um poeta que nos deixou alguns dos mais belos poemas de amor escritos em francês, no século XX. Nos dois casos, homens que parecem se ter conservado fiéis a um único grande amor, durante a maior parte de suas existências: à amante Madame Hanska, no caso de Balzac e à companheira de todas as horas, a romancista Elsa Triolet, no caso de Louis Aragon.

Um olhar sobre a História, sobre a Literatura, nos confirma a oposição permanente entre a felicidade amorosa e sua plena realização. Os grandes casais que a História, a tradição e a arte nos legaram, disso são testemunhas: David e Betsabé, Fedra e Hipólito, Medéia e Jasão, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Dante e Beatriz, Lamartine e Madame Charles. A tradição e a História, ademais, nos mostrara figuras de mulheres sempre à espera do amado. Penélope, fiel a um Ulisses volúvel, a Dama da Idade Média a interrogar o horizonte do alto da torre, o vulto do noivo, marido, que partira para infindáveis batalhas e conquistas, são exemplos da vicária solidão amorosa feminina.

Se o amor é o grande afazer feminino e se não existe amor feliz, conclui-se que, na questão amorosa, são as mulheres as grandes perdedoras. Em seu belo romance Os cadernos de Malte Laurids Brigge, Rainer Maria Rilke, que entendia de amor como poucos, mostra-nos, entretanto, como a infelicidade amorosa foi vivida por mulheres não como uma perda, mas como ocasião de integração pessoal e de criação. E escreve:  

Durante séculos elas realizaram sozinhas tudo o amor, elas representaram as duas partes do diálogo. Porque o homem não fazia senão ensaiar e mal. E lhes tornva difícil seu esforço em aprender por, sua distração, por sua negligência, por seu ciúme, o qual era em si mesmo negligência. E elas, entretanto, perseveraram dia e noite, acrescentaram-se em amor e em dor. E dentre elas surgiram, sob a pressão da dor sem fim, essas amantes inauditas, que enquanto o chamavam, ultrapassavam o homem.

Rilke lembra que essas mulheres se lançaram à busca daquele que haviam perdido, mas logo foram mais além. Elas se realizavam na busca, no amor que sentiam, mais alto que o próprio objeto amado e se tornaram, no interior delas próprias, fonte. E transmudaram o mito do amor infeliz.

Ultrapassar o objeto amado. Tomar-se fonte. Entre essas amantes solitárias, que sozinhas realizaram todo o amor, Rilke coloca a poetisa renascentista Louise Labé. Mulher de muito amores, segundo biógrafos, ter sido abandonada por um deles, fez com que escrevesse alguns dos mais belos e desesperados cantos de amor da literatura ocidental. Seus sonetos e Elegias atestam dessa alquimia que sugere Rilke: a transfiguração em beleza de toda a gama dos sentimentos amorosos - alegria, exaltação, ciúme, abandono, desespero, solidão, e a alternância entre a extrema felicidade e a extrema dor. Mas a grande contribuição de Louise Labé à expressão dessas metamorfose do amor e o questionamento dos mitos sobre os quais ele repousa, é uma obra teatral, o Debate entre Loucura e Amor, publicado em 1555 e reeditado em 1556, quando a autora tinha pouco mais de trinta anos.

O enredo do Debate é simples. Júpiter convidara todos os deuses para uma grande festa. O Amor e a Loucura chegam atrasados e tentam passar ao mesmo tempo pelo estreito portal do palácio. Amor, o pequeno Cupido, empurra a Loucura que se indigna: como um menino ousava empurrar uma deusa tão importante? Discutem, brigam, o amor tenta flechar a Loucura, que se torna invisível, evitando ser ferida. Mas irritada, Loucura fura os olhos do Amor, que vai se queixar a Vênus, sua mãe. Esta exige de Júpiter uma solução para o caso. O pai dos deuses decide que se faça um julgamento, nomeando Mercúrio e Apolo como defensores de cada uma das partes.

Apolo começa a defesa do amor pedindo vingança para quem ultrajou aquele que é a verdadeira alma do Universo. E discorre sobre a ação do Amor através dos tempos. Antes de tudo é o que faz se multiplicarem os homens, perpetuando o mundo. E o talento de Louise Labé vai esboçar quadros divertidos ou pitorescos das ações do Amor sobre os homens. O amor conjugal, por exemplo, tão desacreditado, é fonte de prazer, saúde e alegria. Faz com que um ser humano possua dois corpos, quatro braços, duas almas, sendo assim mais perfeito que os primeiros homens do Banquete de Platão. Se esse amor não existe, o homem abandona o lar, a mulher nem ri, se não está em harmonia com o marido. As pessoas sem amor são descrentes de tudo. E Louise assim os descreve, pela boca de Apolo:  

São pessoas tristes, sem espírito, que não têm graça ao falar, têm voz rude, um jeito pensativo, um rosto mal encarado, um olhar baixo; amedrontados, impiedosos, ignorantes e não gostam de ninguém. Lobishomens. Quando entram em casa, temem que alguém os olhe nos olhos. Barricadam as portas, fecham as janelas; comem porcamente, deitam-se como galinhas, a boca cheia. Usam toucas sebentas para dormir camisola amarrada com broches enferrujados até acima do umbigo, meias de lã cobrindo as pernas, travesseiros cheirando a gordura derretida.

Depois de descrever o modo desleixado como se vestem esses seres sem amor, Louise se compraz na pintura daquele que ama e se sente amado:  

Aquele que deseja agradar pensa nisso incessantemente: olha e olha de novo sua coisa amada. Segue as virtudes que ele vê que lhe são agradáveis e até age contra sua própria vontade (...) O homem tem sempre o mesmo corpo, mesma cabeça, mesmos braços, pernas e pés; mas ele os diversifica de tantas maneiras que parece se ter renovado todos os dias. Camisas perfumadas (...) boné na moda, sobretudo, calças ajustadas e bem arrumadas, mostrando os movimentos de um corpo bem constituído (...) E que diremos das mulheres? É possível enfeitar melhor uma cabeça do que as Damas o fazem e farão sempre? Ter cabelos mais dourados, cacheados, ondulados? (...) Que diligência elas põem no cuidado do rosto, o qual se é belo, elas protegem tão bem contra as chuvas, ventos, calor tempo e velhice, que permanecem sempre jovens.

Mas o amor faz mais que isso, acrescenta Louise. Se trabalha para o contentamento dos olhos, muito mais faz com relação ao espírito. A Música, por exemplo, só foi inventada por causa do amor, o canto e a harmonia são sinais do Amor perfeito. Para isso, os homens inventam novos instrumentos, novas canções e danças diversas. Um viajante sente mais leve seu caminho cantando ou ouvindo um companheiro cantar cantigas de amor. A própria Poesia provém do amor. Assim que as pessoas se apaixonam, começam a escrever versos. E as comédias, tragédias, jogos que tanto nos agradam têm por tema o Amor, que é sempre motivo de qüiproquós e inconveniências:  

Cartas descobertas; enredos maus, alguma vizinha invejosa, algum marido que chega mais cedo do que se previa (...) Enfim, o maior prazer que existe depois do amor é falar dele.

A defesa da Loucura, encetada por Mercúrio, parte do começo do mundo, da loucura dos primeiros homens que corriam, subiam nas árvores. Entre um homem bem comportado e sábio e um louco, a sociedade prefere ouvir as histórias deste último, que é mais divertido. Foi a loucura que levou os homens a embarcarem em frágeis naus, afrontando os ventos, as vagas e os rochedos, para descobrir terras, e daí nasceu o comércio, as trocas, as riquezas. E quantas profissões desapareceriam do mundo se não existisse a loucura? De que vivem os advogados, procuradores, tabeliães, juízes, menestréis, palhaços, perfumistas e tantos outros? Além disso, enquanto o amor ocupa o coração de uma ou duas pessoas, a Loucura diverte multidões. Quando sábios se reúnem para discutir, não há graça, mas a reunião de loucos é uma fonte de alegria. As coisas direitinhas e bem comportadas fazem nascer nossa admiração, mas logo nos entediará. Ao sair de uma reunião séria, temos dor de cabeça, o espírito e o corpo cansados. Mas as comédias, as paródias, os palhaços nos aliviam o corpo e o espírito. Em resumo: a loucura desperta o espírito e por ela o homem dança, salta, se renova. Aliás, o amor faz com que a pessoa queira se confundir com o ser amado, ser uma com ele, o que é impossível.

O texto termina por uma conciliação entre o Amor e a Loucura. Júpiter lhes recomenda viverem amavelmente juntos. E já que o Amor está cego, a partir de então é a Loucura que lhe servirá de guia, pelos séculos dos séculos.

Na primeira das Elegias de Duino, ao lembrar o exemplo de Gaspara Stampa, que, como Louise Labé, fez frutificar seus longínquos sofrimentos, Rilke pergunta: Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-lo, frementes? Através de seus sonetos, suas Elegias, Louise Labé supera o objeto amado. Mas com o Debate entre Loucura e Amor, Louise vai além. Como a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma como o diria Rilke, ela nos leva a encarar, de modo racional ou divertido, as diversas faces sob as quais o sentimento amoroso se apresenta aos homens. Reforçando ou desfazendo os mitos do Amor.

 

(In Amor nos Trópicos – Ensaios e Seleta de Poemas Contemporâneos. (Org. Beatriz Alcântara e Lourdes Sarmento. UFC. Ceará. 2000. Págs. 123-127)